sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Amante da Algazarra

Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.


Waly Salomão

TRAVAR CONHECIMENTO COM A NOITE

Sou um que travou conhecimento com a noite.
Eu fui passear na chuva - e na chuva voltei.
Deixei longe a luz mais distante da cidade.
...
Olhei a mais triste ruela da cidade.
Passei pelo vigia em sua ronda
E para não explicar baixei os olhos.
...
Fiquei imóvel sem o barulho dos meus passos
Quando de longe um grito interrompido
Veio, por sobre as casas, de outra rua,
...
Mas não era chamado ou despedida;
E mais longe ainda, numa altura incrível,
Contra o céu, havia um relógio iluminando
...
Proclamando que a hora não era certa nem errada.
Fui um que travou conhecimento com a noite.
 
 Robert Frost

FESTA

tinha estendido minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o itinerário
até meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E tinha bebido licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.


ALEJANDRA PIZARNIK
"Uma coisa, até não ser inteira, é ruído, e inteira, é silêncio."

ANTONIO PORCHIA
En una noche que debió ser de lluvia
o en el muelle de un puerto tal vez inexistente
o en una tarde clara, sentado a una mesa sin nadie,
se me cayó una parte mía.
No ha dejado ningún hueco.
Es más: pareciera algo que ha llegado
y no algo que se ha ido.
Pero ahora,
en las noches sin lluvia,
en las ciudades sin muelles,
en las mesas sin tardes,
me siento de repente mucho más solo
y no me animo a palparme,
aunque todo parezca estar en su sitio,
quizá todavía un poco más que antes.
Y sospecho que hubiera sido preferible
quedarme en aquella perdida parte mía
y no en este casi todo
que aún sigue sin caer.

ROBERTO JUARROZ
¿Cómo amar lo imperfecto,
si escuchamos a través de las cosas
cómo nos llama lo perfecto?

¿Cómo alcanzar a seguir
en la caída o el fracaso de las cosas
la huella de lo que no cae ni fracasa?

Quizá debamos aprender que lo imperfecto
es otra forma de la perfección:
la forma que la perfección asume
para poder ser amada.

ROBERTO JUARROZ

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Lá se foi Carminha Miranda


Morreu hoje pela manhã a filósofa pernambucana Maria do Carmo Tavares de Miranda, aos 86 anos. Alguém a conhecia, alguém leu um de seus livros, quem sabia de sua obra, de sua existência? Eu mesmo a ignorava completamente, até ainda a pouco, quando um colega de trabalho me interrogou a seu respeito. Não, não sabia dela.
Nascida em Vitória de Santo Antão, em 1926, era apaixonada pela aventura do ser. Correu atrás de seus sonhos e se tornou assistente de Martin Heidegger na Alemanha dos anos 1950. Hoje é considerada pelo pensamento europeu uma das expressões mais altas da intelectualidade brasileira. E eu, que nunca ouvi falar seu nome! Pena não a ter conhecido. Pena já tê-la encontrado saindo de sua floresta. Mas vou caçar o seu legado.
Isso me traz novamente a ideia de que há tantos artistas e pensadores que nos são tão próximos, tão vizinhos e tão anônimos, desconhecidos da maioria absoluta. E a gente podia travar um diálogo germinador e perdemos a chance! Agora a conversa com só poderá se dar de outra forma, válida também, mas talvez menos calorosa.
Ô Deus, dá-nos a capacidade de reconhecer o gênio de nossos pares, aplaudi-los e abraça-los, antes que voltem ao pó! Principalmente os que não estão a fim de ficar todo o tempo se autopromovendo nos facebooks da vida, os que se mantêm velados e silenciosos, mas estão plenos de criação!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

“Os cacos da vida, colados,
Formam uma estranha xícara.
Sem uso,
Ela nos espia do aparador”.

Drummond

“Há que dizer, ao mesmo tempo, que os surtos de coragem, assim com os ímpetos de sinceridade, necessitam de uma ocasião ou de uma dificuldade para existir em ato, isto é, meritoriamente, custosamente, perigosamente, e que uma maneira de ser corajosa conserva no entanto toda a sua sublime evidência.”

Jankélévitch

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

“A unidade de todos os mundos está em que eles formam sistemas de signos emitidos por pessoas, objetos, matérias; não se descobre nenhuma verdade, não se aprende nada, se não por decifração e interpretação. Mas a pluralidade dos mundos consiste no fato de que estes signos não são do mesmo tipo, não aparecem da mesma maneira, não podem ser decifrados do mesmo modo, não mantêm com o seu sentido uma relação idêntica”.

Gilles Deleuze
“Pode-se ser muito hábil em decifrar os signos de uma especialidade, mas continuar idiota em tudo o mais”.

Gilles Deleuze
"Aprender diz respeito essencialmente aos signos. Os signos são objetos de um aprendizado temporal, não de um saber abstrato. Aprender é, de início, considerar uma matéria, um objeto, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados.  Não existe aprendiz que não seja ‘egiptólogo’ de alguma coisa. Alguém só se torna marceneiro tornando-se sensível aos signos da madeira, e médico tornando-se sensível aos signos da doença. (...) Tudo que nos ensina alguma coisa emite signos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos ou de hieróglifos."

Gilles Deleuze

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

“É aquilo que fazemos, em que participamos real e constantemente e não apenas de forma ocasional, aquilo de que qualquer pessoa se ocupa constantemente, e nós próprios também, é afinal o critério pelo qual determinamos o que qualquer um alguma vez é, e o que somos. Este faz sapatos e, assim, é sapateiro. Aquele professa a profissão de instruir e educar e, pelo que faz, é professor. Este exerce o ministério das armas e, daí, é soldado. Aquele ocupa-se da produção de livros que, no índice público dos livreiros, aparecem catalogados na categoria “Filosofia” e é, por isso, um filósofo. Aquilo em que uma pessoa participa com persistência, o que faz, determina o que É.
Mas, sabendo O QUE somos, saberemos QUEM somos?”

Martin Heidegger

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

“Os homens crêem que o instante terminal de sua vida libera, por si só, uma mensagem: a morte seria o momento de revelações, momento solene por recapitular o passado e pela novidade desconhecida de que é portadora. É o fim que, retrospectivamente, ilumina com uma súbita claridade uma vida inteira, de agora em diante, terminada, consagrando-lhe valor (...). Só a morte transforma uma vida em destino.”

Jankélévitch

O HOMEM REVOLTADO


“Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento. Um escravo, que recebeu ordens durante toda a sua vida, julga subitamente inaceitável um novo comando. Qual é o significado deste ‘não’?
“Significa, por exemplo, ‘as coisas já duraram demais’, ‘até aí, sim; a partir daí, não’; ‘assim já é demais’, e, ainda, ‘há um limite que você quer ultrapassar’. (…) Encontra-se a mesma ideia de limite no sentimento do revoltado de que o outro ‘exagera’, que estende o seu direito além de uma fronteira a partir da qual um outro direito o enfrenta e o delimita. Desta forma, o movimento de revolta apoia-se ao mesmo tempo na recusa categórica de uma intromissão julgada intolerável e na certeza confusa de um direito efetivo ou, mais exatamente, na impressão do revoltado de que ele ‘tem o direito de…’. A revolta não ocorre sem o sentimento de que, de alguma forma e em algum lugar, se tem razão. (…) Ele [o revoltado] demonstra, com obstinação, que traz em si algo que ‘vale a pena’ e que deve ser levado em conta. De certa maneira, ele contrapõe à ordem que o oprime uma espécie de direito de não ser oprimido além daquilo que pode admitir.
“O revoltado, no sentido etimológico, é alguém que se rebela.”
Albert Camus (1913-1960)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

“O poeta, quando é poeta, não descreve o mero aparecer do céu e da terra. Na fisionomia do céu, o poeta faz apelo àquilo que no desocultamento se deixa mostrar precisamente como o que se encobre. Em tudo o que aparece e se mostra familiar, o poeta faz apelo ao estranho enquanto aquilo a que se destina o que é desconhecido de maneira a continuar sendo o que é: desconhecido.”

Heidegger

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

(O TEMPO QUE NÃO É) Ingenuamente incomum


 
Dois personagens confinados num espaço insólito, em um tempo oculto. Para abrir a porta e transpassar esse mundo burlesco no qual estão retidos, é preciso responder corretamente a uma pergunta antes daquelas pessoas – o público – irem embora. Os motivos para que isso aconteça são vários e enumerados pelos próprios personagens. No entanto, algo as (nos) motiva a ficar: a magia que o Grupo Tróia de Taipa traz para o palco. A peça Tempo que não é rompe barreiras convencionais e dá lugar a fadas, sonhos, lendas, imaginação. Uma ingenuidade rara nos tempos atuais compõe essa montagem, onde os conflitos também estão presentes.

Três sinais ao longo da peça indicam que o tempo está se esgotando e o momento de responder à pergunta se aproxima. É preciso fazê-lo logo se quiser sair daquela espécie de limbo. E os personagens de Fabiana Coelho e Rita Marize querem. Não há um sentido lógico para esse querer, uma vez que os personagens contemplam o outro lado – onde está o público – sem que fique claro se algum dia eles já fizeram parte desse mundo do qual tanto almejam fazer parte. Ora, mas a montagem dispensa esse tipo de lógica. O texto, uma criação coletiva do Tróia de Taipa, transborda uma coesão interna que justifica tudo o que é apresentado, mesmo diante da falta de coerência que sobra para o espectador.

A direção da peça fica a cargo de Quiercles Santana, que poderia ter imprimido um ritmo maior à encenação. Aquele espreguiçar todo logo no início é maçante, assim como alguns outros momentos. Mas nada que ofusque o encantamento que caracteriza Tempo que não é. Os recursos sonoros e a iluminação impecável de Lilian Kellen contribuem decisivamente para esse vislumbre. O figurino também corresponde perfeitamente ao que é sugerido e as atrizes dão um show de interpretação. A risada de Rita Marize desarma qualquer espectador mais desconfiado. Assim, o grupo Tróia de Taipa cumpre ao que se propõe com a encenação da peça.

No entanto, uma inconstância não pode deixar de ser observada, considerando que a montagem é voltada para o público adulto: há um horizonte enorme que poderia ter sido mais bem explorado, com questionamentos mais profundos acerca das escolhas que cada um de nós fazemos. Essas questões já são suscitadas no espetáculo, mas de maneira superficial. O ambiente lúdico – característico quando se quer falar de lendas e fadas – poderia estar menos presente ou ser menos intenso, com mais inserções de hiatos – os momentos em que as atrizes falam por si mesmas, lendo poemas ou cartas.

Por que os personagens precisam, necessariamente, falar como crianças? Uma opção estética que não deixa de ser acertada, mas que acabou por limitar a encenação, deixando dúvidas acerca do público-alvo da peça. Os adultos são menos sensíveis – ou escolhem ser assim –, de modo que é preciso utilizar outros recursos para se chegar até eles. Para aqueles que se deixam levar pela sensibilidade e abraçam a proposta do Tróia de Taipa, a experiência de fazer parte de alguma forma desse Tempo que não é é simplesmente encantadora.
Por George Carvalho (EM 11 DE SETEMBRO DE 2006)

http://cinecritica.wordpress.com/2006/09/11/tempoquenaoe/

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pessoas e coisas


Há coisas tão desprezadas que lembram
                  pessoas em abandono.
Assim o tijolo que sobrou da construção,
                  o retrato além do número e que ficou
entre estranhos na gaveta
do fotógrafo, a palavra no dicionário, vizinha
da que saiu para o poema.

E mais a palavra sem acolhimento pelo próprio ouvido;
                  o poema no canto da mesa, excluído
                  do livro a publicar,
e o morto do outro enterro.

Mas há pessoas em tal abandono que lembram
coisas desprezadas, Senhor, que não ouso, expô-las
no poema, receoso de que, descobrindo-se ao sol,
duvidem da Tua Justiça e da Tua Misericórdia.


Geraldino Brasil
Do livro Poetas da Rua do Imperador. Recife, Pool, 1986.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Trechos de "Fome"

"Durante todo o verão vagueei pelos cemitérios ou no Parque do Castelo: aí me abancava e escrevia artigos para os jornais, colunas e mais colunas, sobre as coisas mais diversas: invenções estranhas, maluquices, fantasias de cérebro agitado. Em desepero, escolhia frequentemente os assuntos menos atuais, que me custavam longas horas de esforço e nunca eram aprovados. Acabado o artigo, atacava outro, e raramente me desencorajava pelo "não" dos redatores-chefes, dizia sempre a mim mesmo que acabaria vencendo. E, de fato, se estava de veia e o artigo saía bem feito, acontecia-me receber cinco coroas pelo trabalho de uma tarde."

"A idéia de Deus voltou a preocupar-me. Era absolutamente injustificável de sua parte interpor-se toda vez que eu procurava um emprego, e estragar tudo, quando minha aspiração se resumia em ganhar o pão cotidiano. Eu observara muito bem que, se jejuasse durante um período bastante longo, era como se os miolos me escorresem suavemente do cérebro, esvaziando-o. A cabeça tornava-se leve, como que ausente; já não lhe sentia o peso sobre os ombros, e, se olhava para alguém, tinha a sensação de que meus olhos estavam fixos, arregalados.

Sentado no banco, e absorto nessas reflexões, sentia-me cada vez mais azedo com relação a Deus, por causa de suas insistentes provocações. Se ele supunha chamar-me para junto de si e aperfeiçoar-me pelo martírio, acumulando mortificações em meu caminho, estava um tanto enganado, podia garantir-lhe. levantei os olhos para o Altíssimo, quase chorando de orgulho desafiador, e disse-lhe essas coisas uma vez por todas, mentalmente."


Trechos de "Fome", de  Knut Hansum
(visitar o blog  "Todos Nós Lemos": http://nos-todos-lemos.blogspot.com.br/2010/09/knut-hamsun-fome.html)

Fome, de Hansum


Zolthan e eu trocavámos algumas ideias sobre Filosofia e Literatura, pouco antes do suicídio. Foi ele quem me apresentou Gustavo Corção, um dos nomes mais injustiçados da literatura brasileira. E foi ele também quem me falou de “Fome”, obra-prima da literatura mundial do século XIX, escrita pelo norueguês Knut Hansum, ganhador do Prêmio Nobel de 1920 (que aqui no Brasil ganhou tradução de Carlos Drummond)
Flávio Renovatto, que é um doido varrido por cinema de arte, em uma das tantas sessões a que assistiu na Janela Internacional de Cinema, garimpou na porta do Cine São Luiz, uma pequena pérola: a adaptação cinematográfica da novela de Hansum.
Em 1966, o dinamarquês Henning Carlsen transpôs para o cinema uma das histórias mais tocantes sobre o orgulho e o destino de um homem. Trata-se da história de Pontus, um jovem escritor que tenta sobreviver do ofício na gélida cidade da Christiânia, mas cuja vida é das mais difíceis porque não consegue dinheiro para comer. Literalmente, ele passa fome e alucina na luta para manter a dignidade e o orgulho.
Assisti ontem à noite e ainda estou impactado. Além de uma interpretação primorosa de Per Oscarsson, que ganhou do prêmio de melhor ator em Cannes, o filme tem uma fotografia (em preto e branco) absolutamente avassaladora. Inesquecível!

http://www.youtube.com/watch?v=M1HMw4Xw4KU


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Deleuze

"Quando se trabalha está-se forçosamente numa solidão absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Há apenas trabalho nas trevas, e clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos, de fantasmas nem de projectos, mas de encontros. Um encontro, é talvez o mesmo que um devir ou umas núpcias. É do fundo dessa solidão que se pode dar qualquer encontro
. Encontram-se pessoas (e por vezes sem as conhecer nem as ter jamais visto), mas também movimentos, ideias, acontecimentos, entidades. Todas estas coisas têm nomes próprios, mas o nome próprio não designa de modo algum uma pessoa ou um sujeito. Designa um efeito, um ziguezague, alguma coisa que passa ou que se passa entre dois como sob uma diferença de potencial"

O Espelho


Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto (Maputo, 2006)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Hinos de Holderlin

"'Princípio' não é o mesmo que 'começo'. Uma nova situação meteorológica, por exemplo, começa com uma tempestade, mas o seu princípio é a total alteração das condições atmosféricas que a precede. O começo é aquilo com que algo se inicia, o princípio é aquilo de onde isso vem. A Guerra Mundial principiou há séculos na História espiritual e política do Ocidente. a Guerra mundial começou com escaramu
ças entre postos avançados. O começo é cedo deixado ara trás, desaparecendo na continuação dos acontecimentos. O princípio, a origem, pelo contrário, evidencia-se primeiramente por entre os acontecimentos e só no fim destes está plenamente presente. Quem começa muita coisa, muitas vezes nunca chega ao princípio. Acontece que nós humanos nunca podemos principiar com o princípio - disso só um deus é capaz -, pelo contrário temos de começar, isto é, partir de um início que só conduz à origem ou a indica."

MARTIN HEIDEGGER

Um Pedaço de Clarice

“Enfm, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro - e sem limite eu era. Por não ser, era. Até ao fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois 'eu' é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. A minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos, as imagens. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano. E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido, à imagem. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar a evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.”

Clarice Lispector

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Murnau, Aurora e Bram Stoker


Foi assim: um dia, na casa do bom Almir, lemos um artigo do Olavo de Carvalho, que eu tinha descoberto via Zottan. O artigo era sobre “Aurora”, filme de F.W. Murnau, de quem eu já tinha assistido “A Última Gargalhada” (1924), por si somente, um trabalho inestimável, feito ainda na fase alemã, mas que está longe ainda da pujança de “Aurora”, filme em preto e branco, mudo, mas de uma eloquência avassaladora, de uma beleza que não dá para descrever aqui: cheio de símbolos, metáforas, mistérios, plasticamente inacreditável, com uma narrativa repleta de surpresas e atuações inenarráveis (ganhou 03 Oscars, inclusive o de melhor atriz para Janet Gaynor).
Murnau se formou em História da Arte na Universidade de Heidelberg, foi piloto da Força Aérea alemã na Primeira Guerra Mundial e depois virou assistente de Max Reinhardt no teatro. Em 1919 estreou no cinema ao dirigir Der Knabe in Blau. Realizou uns trabalhos menores no cinema até que veio a dirigir Nosferatu (Nosferatu, o Vampiro, 1922): livre adaptação de “Drácula”, de Bram Stoker (autor, cuja data de nascimento, há 165 anos, se comemora exatamente hoje). Interessante saber que o diretor foi acusado de plágio pela viúva de Stoker, que exigiu a destruição de todas as cópias do filme.
Em 1927, agora já morando nos EUA, ele filma “Aurora”, um drama sobre um camponês que resolve matar afogada a sua legítima esposa para viver com a amante da cidade grande, mas desiste de última hora. Somente isso? Não, não é somente isso, cara pálida. Parece simples assim, mas é dessa ideia aparentemente banal que o diretor nos dá socos no estômago e nos põe diante de uma desconcertante poesia, delicada e comovente, sem ser nem um pouco piegas.
Murnau morreu em um acidente de automóvel na Califórnia, em 1931. Tinha então apenas 43 anos de idade. Infelizmente, para todos nós. Mas a sua obra precisa ser vista. Com urgência urgentíssima.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por espetáculos sem tempos mortos


“Sofrível” qualifica alguma coisa? O espetáculo “Tuttotorna”, do CIRCO TEATRO GIULLARI é realmente muito muito ruim ou sou eu que envelheci cedo demais? O espetáculo da companhia ítalo-brasileira é letárgico, sem graça, com mais filosofia do que circo de verdade. Aqui ou ali se vê um ou outro número que mal dá para entusiasmar e já cai novamente no tédio de ações mal alinhavadas, como se os dois “artistas” em cena não soubessem muito bem o que tinham de fazer. Brochante! Puro encher linguiça para matar o tempo.
Sai do teatro lembrando de Almir Rodrigues que um dia me falou da vontade de abrir uma entidade que, se não me falha a memória, se chamaria SEDI (Sociedade dos Espectadores com Direito a Intervenção), na qual a plateia teria o direito de parar o espetáculo para interpelar os atores. “Ô meu, quem foi que te mandou fazer essa merda ai, rapaz?”, “Porque é que vocês perderam tanto tempo para isso ai?”, “Você tá querendo matar o meu tempo, filho? Tempo é vida, sabia? Me ofereça algo vivo, pulsante, inteligente, faz favor!”
E, creiam, por vivo não entendo somente espetáculos com acrobacias e pirofagia abundante. Pode ser algo como o “Esperando Godot”, de Beckett, dirigido pelo João Denys em meados da década de 1990, aonde não acontecia nada, mas a atmosfera pesava de significação. Era muito vivo e de uma inteligência fodida.
Mas o trabalho de ontem, pelo amor de Deus! É claro, contudo, que deve ter agradado a uma ou outra pessoa presente no Teatro Apolo (Em Recife). Sempre há quem extraia grãos de ouro de puro esterco, quem consiga (como Midas) fazer merda virar ouro. Mas a pergunta que fica mesmo é: porque diabos é que a curadoria achou por bem chamar este trabalho para compor a grade de programação do FESTIVAL INTERNACIONAL DE CIRCO DO BRASIL? Muito distante em termos de qualidade do “Maravillas”, da L’Ateneu Popular 9 Barris (da Espanha) e de “A Carta”, de Paolo Nanni (Dinamarca). Aqui sim trabalhos que dignificam a ocupação do palco e da vida do espectador... sem tempos mortos!

sábado, 3 de novembro de 2012

Paolo Nani e a nossa idiotia




Mesmo sendo uma pessoa um tanto quanto difícil (DIZEM POR AI) acabo que também sou fácil demais para dar risada. Vou ao teatro e, se acho alguma coisa engraçada, riu. Não sei se me entendem quando digo assim; é que não dou uma risadinha acanhada, escondida, mesquinha, entendem? Riu, riu mesmo, com a boca toda, acanalhadamente, como quem não tem mais tempo para rir no futuro e junta tudo para rir ali na hora. E isso às vezes me dá alguma chateação: ou a namorada me beliscando no escuro (o que, é verdade, não tem feito mais) ou alguém vindo perguntar, depois do espetáculo findado, por que é que eu tinha rido na hora errada. Que merda, meu! Foi assim uma vez quando fui ver o “Cordel do Amor Sem Fim”, uma ou duas cenas em que não medi os decibéis e mandei ver. E não é por que queira, é por que vem a vontade e não ponho filtros. Teve uma vez que estava lendo “Angústia” de Graciliano... meu Deus! Que livro hilário! Ai veio um amigo escritor me disse que não via aonde eu via graça. Acho que situação absurda que a personagem vive, o jeito do escritor por lá as descrições e os pensamentos do sujeito.
Ontem, que maravilha!, assistir ao espetáculo “A Carta”, do dinamarquês Paolo Nani. Criado em 1992, o trabalho a mesma história (um cara escrevendo uma carta e descobrindo depois que a caneta não tem tinta) de 15 maneiras diferentes. Quase sem palavras, o espetáculo é sensacional. Pura bobagem, feita com maestria. O nosso lado mais idiota, posto no palco, sem conta-gotas. 


quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Conheci a Sontag por este livro sobre fotografias, puramente por acaso. Tinha ido à Cultura procurar outro título e, perdido na prateleira, estava um solitario exemplar. Louco pelo Goya, cai logo de olhos em cima. Comecei a ler ali mesmo na loja e, dois dias depois, já tinha chegado ao final. Me deixou um gosto de "quero mais", como fiquei ao término da "Câmara Clara", de Barthes. Quem for louco por fotografia e estiver a fim, o livro foi reeditado pela Cia. das Letras. Vale muito, puro deleite!


“Há tanta poesia, e no entanto, nada é mais raro que um poema!”, disse Schlegel. Eu concordaria com ele tempos atrás, mas não sei agora. Hoje estou mais para “Há tantos poemas e no entanto nada mais raro que poesia”

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Acontecer

“Uma estrela nasce a milhares de anos-luz da nossa Terra. Sabemos do seu surgimento muito tempo após esse rebentamento, que poderá, ou não, vir a ter influência nas estruturas, nos movimentos macro e microscópicos do nosso planeta, da nossa vida. Ao mesmo tempo, porque não, uma estrela já morta definhe à vista nua numa noite de Verão, um bebé nasce, rebenta uma guerra, é descoberto um fóssil que desestabiliza conceitos dados como certos da paleontologia, da história, porque não, até mesmo da religião. Alguém compõe uma sonata, ou uma sinfonia, cuja primeira nota de abertura nos enche, desde logo, com tamanha alegria, que milhares de fontes irrompem no escuro de uma sala. Um livro é escrito, torna-se um best-seller – mas permitam-nos sonhar, desta vez, com um livro que tenha tudo para não ser a maior venda e por magia, por acaso, se torna nisso – e todo o mundo fica igualmente rendido, um mundo mudo. Ou então, um homem atravessa uma rua, simplesmente isso, mas esse passeio normalíssimo, banal, rotineiro, modifica-o daí em diante... O que afinal aconteceu? E o que é isso, o Acontecimento? Tudo o que acima foi dito, entre tantos exemplos possíveis, trata-se de acontecimentos, ou experiências, ou, ainda, acasos? O que há de singular, de único num determinado evento que o torna a manifestação de um Acontecimento – melhor, mais do que manifestação, designação ou expressão, ser ele Acontecimento – e não de uma experiência? Ou, por outro lado, o que os aproxima, o que faz com que uma experiência se diga acontecimento, do acontecimento?”

Fernando Machado Silva
em “Poiética do Acontecimento: Deleuze e Serres"

terça-feira, 30 de outubro de 2012

CHUVA


A chuva, no pátio em que a olho cair, desce em andamentos muito diversos. No centro, é uma fina cortina (ou rede) descontínua, uma queda implacável mas relativamente lenta de gotas provavelmente bastante leves, uma precipitação sempiterna sem vigor, uma fração intensa do meteoro puro. A pouca distância das paredes da direita e da esquerda caem com mais ruído gotas mais pesadas, individuadas. Aqui parecem do tamanho de um grão de trigo, lá de uma ervilha, adiante quase de uma bola de gude. Sobre o rebordo, sobre o parapeito da janela a chuva corre horizontalmente ao passo que na face inferior dos mesmos obstáculos ela se suspende em balas convexas. Seguindo toda a superfície de um pequeno teto de zinco abarcado pelo olhar, ela corre em camada muito fina, ondeada por causa de correntes muito variadas devido a imperceptíveis ondulações e bossas da cobertura. Da calha contígua onde escoa com a contenção de um riacho fundo sem grande declive, cai de repente em um filete perfeitamente vertical, grosseiramente entrançado, até o solo, onde se rompe e espirra em agulhetas brilhantes.
Cada uma de suas formas tem um andamento particular; a cada uma corresponde um ruído particular. O todo vive com intensidade, como um mecanismo complicado, tão preciso quanto casual, como uma relojoaria cuja mola é o peso de uma dada massa de vapor em precipitação.
O repique no solo dos filetes verticais, o gluglu das calhas, as minúsculas batidas de gongo se multiplicam e ressoam ao mesmo tempo em um concerto sem monotonia, não sem delicadeza.
Quando a mola se distende, certas engrenagens por algum tempo continuam a funcionar, cada vez mais lentamente, depois toda a maquinaria pára. Então, se o sol reaparece, tudo logo se desfaz, o brilhante aparelho evapora: choveu.

Francis Ponge (Trad: Júlio Castañon Guimarães)

O Estado das Coisas

O que me sustenta ou me empurra, me obriga a escrever, é a emoção provocada pelo mutismo das coisas que nos cercam. Talvez se trate de uma espécie de piedade, de solicitude, enfim, tenho o sentimento de instâncias mudas da parte das coisas, solicitando que finalmente nos ocupemos delas, que as digamos... Por que não dizer, indo um pouco mais longe (ainda não é muito longe), que os próprios homens, na sua maior parte, nos parecem privados de palavra, são tão mudos quanto as carpas e os pedregulhos?


Francis Ponge

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Para a Psicologia do Artista




Para que haja a arte, para que haja um fazer  e contemplação estética, é incontornável uma condição fisiológica prévia: a embriaguez. A embriaguez tem de intensificar primeiro a excitabilidade da máquina inteira: senão não se chega à arte. Todos os tipos de embriaguez, por muito diferentes que sejam os seus condicionamentos, têm a força de conseguir isto: sobretudo a embriaguez da excitação sexual, que é a forma mais antiga e originária de embriaguez.
Do mesmo modo, a embriaguez que nasce como conseuqencia de todo grande empenho do desejo, de toda e qualquer afecção forte; a embriaguez da festa, do combate, dos atos de bravura, da vitória, de todo e qualquer movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez na destruição; a embriaguez sob certas condições meteorológicas, por exemplo a embriaguez primaveril; ou sob a influência de narcóticos; por fim, a embriaguez da vontade, a embriaguez de uma vontade acumulada e dilatada.”

Friedrich Nietzsche, in "Crepúsculo dos Ídolos"

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência 
como o mármore não talhado é rico em escultura".
 Aldous Huxley

sábado, 20 de outubro de 2012

Sexta Ímpar



 Ontem, sexta-feira, foi um dia ímpar. Não por ter sido um 19, neste outubro de pouca graça. Não. Falo da singularidade, da estranha atmosfera, da esquisitice mesmo do dia. Terá sido assim para todo mundo? Ou somente para mim? Ontem, esta sexta-feira singular, foi aniversário do meu irmão (difícil falar com ele quando ele não tá afim).
Também foi dia de pensamentos esparsos sobre o retorno ou a extinção definitiva de minha carreira com a banda musical (Zambiola) depois da Feira do Empreendedorismo, no Centro de Convenções.
Também foi dia em que chegou ao fim a novela do João Emanuel Carneiro (Avenida Brasil), com uma trama torta, cheia de problemas e barrigas, mas de direção e fotografias surpreendentes.   Sem falar no trabalho da Adriana, que Esteve completa, absoluta, endemoniada (logo eu que detesto novelas e não acompanho nenhuma desde a obra-prima do Cassiano Gabus Mendes, “Que Rei Sou Eu?”, em 1989!).
Foi ontem também que descobri a inclassificável Maria Gabrilea Llansol, uma escritora portuguesa que tem um sangue poético do Fernando Pessoa na veia.
E, por fim, teve a estreia de “Avesso”, espetáculo de Ana Flávia e Igor Lopes, da Cia. Cicuta Sem Estricnina, no SESC Casa Amarela, em Recife, às 20h. Dois textos inteligentes, dois atores com apetite. Realmente é muito bom ver que alguns grupos e companhias teatrais desta cidade andam à procura de outras possibilidades para além dos besteiróis e dos espetáculos de adolescentes revoltados. Curto e grosso, o trabalho de Flavia e Igor são um tapa no bom comportamento, no politicamente correto, sem perder a austeridade.
É isso. Foi assim a minha sexta absurda. Talvez achemos ao término desta fala toda que não há nada de verdadeiramente excepcional no que foi dito. Pode ser. Mas sabem aquela sensação esquisita de que é muito, muito esquisito quando tudo, tudo, tudo no parecer assim tão no lugar, tão comum, tão normal? Que será que é isso?
Eu, heim?! Sei lá!

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Resistência da poesia

"É preciso contar com a poesia. É preciso contar com ela em tudo o que fazemos e pensamos fazer, nos discursos, no pensamento, na prosa e na arte em geral. O que quer que haja atrás desta palavra, e mesmo supondo que não haja nada que não seja datado, terminado, deslocado, eliminado, mesmo assim resta a palavra. Uma palavra com a qual há que contar porque assim ela exige. Podemos suprimir o «poético», o «poema» e o «poeta» sem grandes prejuízos ( talvez). Mas com a poesia com toda a indeterminação do seu sentido, e não obstante toda essa indeterminação, não há nada a fazer. Ela lá está, e sempre estará mesmo que a rejeitemos, que desconfiemos dela e que a detestemo". 

 Jean Luc-Nancy


"Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece."

Maria Gabriela Llansol in "O Começo de Um livro é Precioso"

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O CAMINHO DA FLORESTA


Do portão do Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o muro, as velhas tílias do Jardim acompanham-no com o olhar, estenda ele, pelo tempo da Páscoa, seu claro traço entre as sementeiras que nascem e as campinas que despertam, ou desapareça, pelo Natal, atrás da primeira colina, sob turbilhões de neve. Próximo da cruz do campo, dobra em busca da floresta. Sauda, de passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na madeira crua.
Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanha nossos passos pela sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.
O pensamento sempre de novo às voltas com os mesmos textos ou com seus próprios problemas, retorna à vereda que o caminho estira através da campina. Sob os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quanto do camponês que de madrugada caminha para a ceifa.
Mais freqüente com o correr dos anos, o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infência e às primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da floresta tombava um carvalho sob os golpes do machado, meu pai logo partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Era lá que trabalhava solícito e concentrado, os intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos, que, uns e outros, mantêm relação própria com o tempo e a temporalidade.
Os meninos, porém, recortavam seus navios na casca do carvalho. Equipados de banco para o remador e de timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por um halo apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava como se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas travessias de brinquedo nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente, da lentidão e da constância com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer pode fundar o que dura e frutifica; que crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente as duas coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.
Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe aquilo que tem seu ser em torno dele; e dá a cada um dos que o percorrem aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas da colina escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros a cotovia da manhã se lance no céu de verão, que o vento leste sopre a tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, quer o lenhador carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o carro da colheita se arraste em direção ao celeiro oscilando pelos sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na ourela do prado, quer passeie a neblina ao longo do dia sua sombria massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho do campo, o apelo do Mesmo.
O Simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que dispensa está escondido na inaparência do que é sempre o Mesmo. As coisas que amadurescem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junto a quem aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus.
Todavia, o apelo do caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que os cerca forem capazes de ouví-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamentos procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seu ouvido retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entendiados só vêem monotonia a seu redor. O Simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se.
O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente. Esses poucos, porém, serão, em toda a parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem engendraram para com ela entravar sua própria obra.
O apelo do caminho do campo desperta um sentido que ama o espaço livre e que, em momento oportuno, transfigura a própria aflição na serenidade derradeira. Esta opõe-se à desordem do trabalho pelo trabalho: procurado apenas por si, o trabalho promove aquilo que nadifica.
Do caminho do campo ergue-se, no ar variável com as estações, uma serenidade que sabe, e cuja face parece muitas vezes melancólica. Esta gaia ciência é uma sagesa sutil [1]. Ninguém a obtém sem que já a possua. Os que a têm, receberam-na do caminho do campo. Em sua senda cruzam-se a tormenta do inverno e o dia da messe, a irrupção turbulenta da primavera e o ocaso tranqüilo do outono; a alegria da juventude e a sabedoria da maturidade nela surpreendem-se mutuamente. Tudo porém se insere placidamente numa única harmonia, cujo eco o caminho do campo em seu silêncio leva de um para outro lado.
A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um dia com os enigmas da existência.
Das baixas planícies do Ehnried, o caminho retorna ao Jardim do Castelo. Galgando a última colina, sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega às muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas. Atrás do Castelo alteia-se a torre da Igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudemente, treme sob o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.
Após a última batida, o silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus?
Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renúncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos de novo habitar uma distante Origem, onde a terra natal nos é devolvida.

 Por Martin Heidegger



[1] Literalmente: "Este alegre saber é das Kuinzige". Este termo dialetal, próprio da Suábia do Sul (onde se encontra Messkirch, cidade natal de Heidegger), corresponde etimologicamente a Keinnützig, "bom para nada", "próprio para nada", cujo sentido passou para o de "travesso", "malicioso", e finalmente hoje designa um estado de serenidade livre e alegra, que gosta de se ocultar, marcada por uma ironia afetuosa e por um toque de melancolia: melancolia sorridente, sabedoria que apenas se comunica discretamente nas palavras. Estas informações foram dadas pelo próprio autor a Adré Préau, tradutor francês deste texto, que em seu trabalho opta pela forma "sagesse malicieuse" (vide Martin Heidegger, "Questions III", Éditions Gallimard, 1966, Paris). Ao propor em português a tradução "sageza gentil", quisemos ressucitar um velho vocábulo corrente na língua do século XVI, cuja afinidade com o francês "sagesse" comunica um pouco do indefinível conteúdo da expressão dialetal preferida por Heidegger [NOTA DO TRADUTOR].

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Vai!

Vai, escreve aí algo de tua lavra, de tua cabeça, nascida de teus próprios pensamentos e considerações sobre tudo, desde as pequenas coisas ao incomensurável universo em que navega o planeta azul. Fala do que crês e do que gostarias de depositar fé, do que há de luz e de sombras em teu redor, fora de ti e nos abismos que te vai por dentro, teu coração. Erige assim uma obra sincera.
Se não lidas bem com as palavras, faz um filme (curto, médio ou longo, de animação ou documental, sisudo ou cheio de humor), esculpe, pinta, dança, canta, vive, mas expressa.
Se te dás bem com o manejo da palavra, pode ser, quem sabe, um poema, um conto, uma novela, uma crônica, um sermão, um tratado de metafísica... Não carece que seja algo politicamente correto, aceito por todos os bons lutadores engajados por um mundo melhor. Mas tem de ser, ou deve ser, ou pelo menos que seja (peço!), algo não apegado às formas de pensar já concebidas, já mastigadas, já vomitadas, que se retroalimentam e tornam tudo e todos um só pastiche, que nos aparenta a papagaios que vociferam as palavras e frases feitas dos outros, que repetimos sem termos com elas um comprometimento de força pensante.
Deve ser algo mais profundo que um “Que nada!”, pois que um “que nada!” nada diz, embora expresse a superfície de coisas sem profundidades em que tu põe a tua existência, mas nada dizem de realmente vivo. Te irrita, te proclama, te insurge (é um direito teu, como é da natureza do cão latir e do gato miar), mas te diferencia do patamar da natureza e diz mais e melhor que o cão e o gato. Te compromete, constrói argumentos (não para convencer ninguém de coisa nenhuma, mas para que possamos sentir que teu sangue habita as tuas falas).
Põe a tua alma (que palavrinha fora de moda, essa!) nas coisas, já que o corpo é perecível e um dia não estaremos mais presentes. Talvez a alma nas coisas possa perpetuar as coisas e a nós mesmos depois que nos formos. E a tua alma (leia-se: teu pensamento) talvez possa ser sentida por outras almas. Buliçosa, possa bulir com as outras e tirá-las da inércia. Quando tu não mais estiveres ainda serás necessário.
Fui um dia à Capela Sistina e lá vi que o Papa-Grana e os seus lacaios de prontidão tratam as pessoas como bichos em nome do que chamam de Sagrado. Eles não se humanizaram, os senhores do Vaticano, mesmo tendo à vista a obra de Miguel Ângelo, que levou quatro anos para conclui-la e não se deixou abater apesar da tarefa hercúlea. E permanece lá há séculos, a nos inquirir sobre o que fazemos com o tempo que nos é dado.
Sim, eu sei, isso se parece mais um Manifesto Romântico datado. Sim, pode ser. Mas sente que em cada palavra há fogo, força e um pouco de veneno. Espero ter te alcançado e, de alguma maneira, te inoculado um pouco disso que pode nos tirar da torpeza e da inestética que nos ronda.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A idade Viril

Será que quando a morte – ou algo que a ela se pareça – está em jogo, as palavras agem do modo mais vital? Ou será que, ao contrário, quando as palavras se agitam até se desarticularem é que o leitor mergulha num abismo em certa medida fatal?

Michel Leiris

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Devir-Criança do Pensamento

"Ninguém sai ileso do encontro. Cada um à sua maneira, em sua singularidade, ao se defrontar com a invenção, a arte, sente os limites do universal na produção e não na reprodução, no ato de experimento e não de imitação".
Daniel Lins in: "O Devir-Criança do Pensamento"

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

"Não discuto se sou feliz ou não
Mas de uma coisa faço por lembrar-me sempre:
Que nessa grande soma – a deles, que eu detesto –
De tantas e tantas parcelas, não sou
Uma delas. Eu nunca fui contado
Para a soma total. Esta alegria me basta.”

Konstantínos Kaváfis

Imagens à espera dos teus olhos

«Quanto mais interpretações uma imagem provocar (conotação) levando o receptor a ultrapassar o que materialmente representa (denotação), mais forte será o seu poder evocativo e maior simbolismo possuirá.»

C. Beauvalet in L’Homme et L’Image (1966)

(ver http://www.bitaites.org/paginas/169/)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Simone: um conto a caminho

Ah, sim! Bonita lá era, a danada da menina Simone chamada. Cachos ruivos na fronte de sardas; sorriso largo, alvíssimo, olhos grandes caprichados no castanho-puxado-pro-amarelo, quase damascoso. Nem alta, nem baixa. 12 anos de enxerimento, 12 anos somente, meu Deus!, mas já cheia de graças e trejeitos, seios rascunhando espevitamentos no corpo da mulher por vir, já nutrindo querências.
Ela tinha gosto em ser vista, a desgraçada. Dava pra sentir isso nos olhos dela, no sorriso de canto de boca, no pseudo-desdém. O que tinha de bonita, tinha de tinhosa. Faceira, desmedida nas sinuosidades, bamboleava pelas ruas, toda dona do ser. As inocências, começava a perder todas, uma a uma, safaaaaaada que era demais, um cãozinho com cara de arcanjo, a fazer descobertas, experimentando façanhas, andares, biquinhos, modos de endoidar homens ainda meninos e também os homens-homens feitos, barbudos, prontos, testados.
Costumava, nos fins de tarde, caçar pão na padaria, a mando da avó. Pegava a bicicleta da prima e lá se ia numa roupinha curta, um short, uma saia miúda por demais, as pernas grossas de fora, os pêlos finos, blusas sem mangas de número bem maior que o dela, sem sutiã, atraindo, feito um imã, as fantasias dos seres, que alimentavam as suas. Ela se ria gostoso, imaginando as intumescências... um sorriso safado, mal disfarçado, matreiro, rascunhado no rosto.
Na hora do recreio, pátio da escola, pino do meio-dia, à la normalista, ela tinha o hábito de armar arapucas para os de quem se engraçava. Era um espelho redondo, desses de bolso, antigamente usados pelos mais velhos. De propósita malícia, deixava-o no chão com a face espelhada para cima, a refletir o céu. E como quem lança convite, pedia ingenuamente que um menino ou outro apanhasse para ela o tal objeto. E no imediato com que o escolhido se baixava, ela abria um tantinho mais as pernas no intento de que mais luz pudesse deixar o gentil cavalheiro entrever as suas partes púbicas, desnudas, penugens nascentes, no fundo semi-escuro da saia refletida na lâmina de vidro.
Certa vez, Antônio Amaro foi pego no banheiro masculino, fazendo safadezas com as mãos. Foi levado à secretaria aos empurrões, que nem criminoso. Perguntado do porquê tinha feito aquela coisa pecaminosa, não titubeou: “Simone!” As professoras ficaram aterradas. Os professores também, embora no fundo escuro de si mesmos, compreendessem os motivos de Toinho. A notícia se espalhou ligeira. Simone era só sonsice. Fingia que não era com ela lá, que não tinha nada a ver com aquilo, mas gostava. E se ria por dentro. Risadas das grandes segredadas somente para si. Mas a gente, de fora, via lá dentro que para ela aquilo era um gozo só só.
Um dia (quem se lembrará quando?) Simone se foi. Ela, que morava com a mãe, Dona Genoveva, na casa de junto, de repente não estava mais lá. Estivera mesmo algum dia? Ou fora miragem, visagem, alucinação? Disseram que tinha ido morar com a tia noutras paragens, na lonjura, ôco do mundo. Toinho lastimou por demais, jurava que nunca mais que ia vê-la de novo, que a perdera das vista pra sempre, como vez ou outra acontece aqui e acolá com um amigo, um conhecido, alguém que está perto e num segundo se some, sem achar caminho de regresso.
Ele lamentou, mas que ia de fazer? Pequeno como era ainda, nem que podia correr atrás, dizer para ela que não se fosse, que ficasse, ou então, que levasse ele com ela, mas que não se separassem por que não era direito. Que eles se conheciam de há muito, desde miúdos. E que foi por causa do brincar no terreiro, ver as noites de lua, conversar besteira, que o amor por ela foi aumentando de tamanho sem que ele desconfiasse. E agora que ela era quase uma mocinha, não era uma covardia que ela tivesse ido embora sem nem deixar um adeus por despedida?
E porque diabo nunca que tinha tido coragem para dizer a ela o seu amor? O coração sempre batendo no descompasso quando dava com ela, às vezes dentro de sua casa mesmo, quando ela vinha a mando da mãe ou da avó em busca de uma caneca de açúcar. Por que não dizia nada? Por que não a agarrara nem que fosse um tanto à força para que ela soubesse que ele a queria? E se dissesse ou fizesse coisas desse naipe, não corria o risco de ela dar uma risada e depois sair por ali pela vila a mangar com o coração dele? Não queria passar por essas coisas. Achou por bem ficar mudo.
Mas e agora? O fato é que Toinho passou a sentir falta de Simone. Muita falta! Falta mesmo, das grandes, das fortes, de machucar. Se pegava imaginando outros tempos, quando estavam juntos. Se viu de novo no enterro do avô Simão. Ela junto, pegando a sua mão, tentando consolar a sua dor, fazendo um cafuné. Se pegou a lembrar do cajueiro, vistoso e sozinho, plantado feito um rei no alto da serra do capim. Eles costumavam ir por lá com outros amigos chupar caju na época. E depois iam ao riacho lavar as mãos, tomar banho, perturbar as betas. Agora não mais. Os cajus ficavam por lá, eram pegos por outras meninices, outras inocências, outros mistérios. Ou então apodreciam. Ele que não os queria mais... tinham perdido o sabor... faziam lembrar dela.
No meio de tantas Marias, tantas Anas, Fernandas, Antônias, por que, meu Deus, tinha justo se apaixonado pela Simone? Agora era tarde. Melhor conformar.
Os tempos foram mudando, veio o inverno e o verão, os rios encheram e minguaram, outro inverno e outro verão, cheias e esvaziamentos, e tantos outros invernos e verões e tantas outras águas passaram, que parecia que não ia ter fim.
Até que uma vez, de manhã cedo, ainda deitado na cama, mal tinha ainda saído o sol, ele escutou a voz da Dona Genoveva falando braba:

      - Vai menina, levanta e vai buscar o rapador de côco na casa de tua tia! Tenho muita coisa por fazer hoje! É sexta-feira santa, sujeita! Vai t’embora!

       - Já vou, Mainha! Já vou! Oxe! Oxe!

    Será que era ela? A voz, o jeito da fala, a música, parecia a mesma sendo que diferente. Sentiu um frio na espinha, o coração aos pinotes. Correu na jarra, encheu d’água uma caneca e foi se postar na janela com a desculpa de lavar o focinho. Foi quando a porta dos fundos da casa da vizinha se escancarou e lá de dentro ela veio, em passo manso, pro mundo de cá de fora. Não podia acreditar! Depois de tantos tempos! Era ela! E era linda!