sexta-feira, 6 de agosto de 2010

É FEITO DOMINÓ


Ploct! A menina deu um peteleco inicial na primeira peça e, pronto!, lá se foi a fileira toda de pedrinhas de dominó caindo uma após outra , em cascata, até que a última jazia na horizontal. Achava lindo vê-las esbarrando uma nas outras e o efeito que aquilo causava em sua visão. Era um frisson. Se descobriu de repente viciada no passatempo. Passou a comprar mais jogos de dominó apenas com o intuito de aumentar a fileira indiana de guerreiros tontos. Certa vez chegou a ter 1400 peças, que lhe roubavam horas a fio para serem devidamente enfileiradas, apenas para depois, em questão de segundos, virem todas abaixo. Aumentar a quantidade de peças era aumentar um pouco mais o tempo de prazer, a demora em chegar ao fim.
Quando se deu por si não era mais uma menininha. Crescera. Virara mulher. E não se interessava mais por dominós. Contudo, do mesmo modo como algumas pessoas conseguem transferir determinadas manias para outras áreas de suas vidas, ela conseguiu arranjar meios e modos de continuar o seu jogo e seus efeitos de queda com as pessoas.
Passou a arranjar amizades e namorados e namoradas que, sabia, não durariam muito em sua vida, relações de superfície, de maquilagem, apenas com o intuito de ter peças (era importante tê-las e quanto mais melhor, senão como teria jogo, como teria beleza o efeito?), de colocá-las de pé e, com um simples peteleco, vê-las cair desastrosamente uma após outra. Sabia como ninguém levantar relações, fazer amigos, criar expectativas, alimentar emoções e esperanças, dar colo, abraços, afagos, ouvidos, de forma tão genial quanto sabia minar tudo, fazer ruir o que antes dissera ser importante e essencial para a sua existência.
Até que um dia, já muito velha, se viu sozinha.
Nada nem ninguém com quem pudesse dialogar, que valesse a pena. A idade lhe roubara do corpo a beleza juvenil, as pernas bem torneadas, a face de pêssego, a boca carnuda, o brilho dos olhos. Não havia mais como conseguir peças humanas para o seu passatempo predileto. Todas as peças (as ainda vivas e as já mortas) jaziam no chão de sua memória, todas caídas, como pássaros sem asas. Para algumas havia um lamento guardado no peito; mas para a maioria delas havia apenas o pensamento de que poderiam ter valido a pena, mas não chegaram a tanto.
Aos poucos foi perdendo o juízo. Viciou-se em bebidas. Enlouqueceu a olhos nus. Os vizinhos a mandaram internar num hospício próximo. Ela foi sem fazer alarde. Ficava isolada a maior parte do tempo em seu aposento num primeiro andar. Não recebia visitas e nem sentia necessidade de as receber. Gostava das coisas assim como estavam. A única coisa que fazia questão era de, a cada semana, adquirir um novo jogo de dominó a fim de manter aceso e ampliar mais e mais o efeito da queda, as fileiras rendidas com um peteleco. Até o dia em que não jogou mais. Era ela própria uma peça inerte no chão.