sexta-feira, 3 de setembro de 2010

NEBULOSA CARINA!



Perguntamos: Como se pode ser artista numa época em que tudo é arte? Se tudo é, como diferenciar o não ser? O sujeito coloca um penico de louça sobre uma mesa numa exposição, num museu, sob a luz de um abajur... e diz que é arte. O outro aparece na TV, no Big Brother, Sílvio Fausto Santos Silva, com o rosto barbeado de azul, diz duas ou três atrocidades numa telenovela ruim de amargar e é artista consagrado já. A moça mostra em público o púbis melado de rubra tinta e, novamente: arte.
Artefatos de plástico e fogos de artifício, a mim me parece que muitas das obras hoje (ditas) de arte misturam nada com nada para comunicar nada a ninguém. Exagero? Talvez. Mas não dá para ver Tarkovsky e não pensar que há algo de muito delicado ali, de verdadeiro, de pulsante, de decisivo e que não é fácil fazer acontecer o que na tela é mostrado. Há compressão de tempo, há dilatação de tempo, há vida. O poeta que grita impropérios no fim de “Nosthalgia”, não é apenas um idiota vociferante. É uma voz e uma fala que não dá para se ignorar. O homem caminhando com a vela acessa e trêmula, sacudida pelos ventos, enquanto tenta atravessar o canal, é mais que um capricho, é uma solicitação à sensibilidade de quem vê; é um convite à reflexão das nossas fragilidades.
Arte, penso hoje, são essas obras prenhes de indagações sobre o Ser, sobre a efemeridade da vida e sobre as fragilidades e grandezas de ser humano e viver num planetinha azul.
Ontem (02 de setembro de 2010) fui com o Anjo Barroco ver a exposição “NOVOS MUNDOS NOVOS”, no Espaço Banco Real, no Recife Antigo. Qual não foi minha surpresa, ao me deparar - última coisa a ser vista na exposição, se você segue a direção sugerida pela curadoria – com uma tela imensa onde se vê reproduzida a “Nebulosa de Carina”. Fantástico! Emocionante! Comovedor! Aquilo, sim, de fato, era chocante! Como o universo é imenso, sem limites, colorido e mutante! Como chega a ser aterrador se a gente pára, de verdade, pra pensar no que andamos a fazer com as nossas vidas! E como, meu Deus!, é lindo!
Lembrei que outro dia tinha visto uma frase num livro do Gadamer em que ele reelaborava uma antiga e tão atual indagação de Platão: “A Obra de Arte nos apresenta a nós mesmos: ‘Eis o que tu és!’ E nos questiona: ‘por isso é que precisas mudar a tua vida!” Ser artista, acho eu, tem muito disso: nos apresenta um universo e o nosso tamanho frente a ele. Às vezes grandes, às vezes pequenos, somos todos passageiros e o que conta no final é o que fazemos com o tempo que nos é dado viver. Sem assinatura, sem estardalhaço, a Nebulosa de Carina, sim, é uma grande obra de arte, por que nos apresenta de um tamanho ao mesmo tempo menor e maior do que somos. Depende de onde e por onde se olha e vê!

Veja a canção:
http://www.youtube.com/watch?v=YW4FR2Oz6VY