quinta-feira, 24 de novembro de 2016

SOBRE “NÓS” PAIRA O IMPONDERÁVEL


Nunca morri de paixão pelo GRUPO GALPÃO, de Minas Gerais. “Morrer de paixão” aqui é ser cego no sentido em que alguns apaixonados se deixam ficar, a ponto de se maravilhar com qualquer coisa que o objeto de sua paixão venha a fazer, sem ver ali o que há de bom ou ruim, porque tudo tudo, de antemão, “parece bom”. Para o apaixonado clássico tudo é lindo quando se trata de sua paixão.
Então, como ia dizendo, eu nunca morri de paixões pelo Galpão. Embora uma das coisas mais belas que lembro ter visto em teatro tenha vindo do grupo. Era a primeira parte (a segunda parte não, era um pé no saco) da RUA DA AMARGURA. Durava pouco, mas ainda permanece em mim. O Nascimento de Jesus, as canções, as cores, a movimentação, a alegria, era absolutamente pungente, belo mesmo, maravilhoso até. Depois disso, daí em diante, tudo o que vi do grupo me soou como uma variante mais pobre deste momento fulminante.
Nem o Romeu e Julieta, aclamado mundo a fora, me foi tão precioso como aqueles 15 minutos de prólogo da Rua da Amargura.
Entendam, não estou aqui desfazendo a trajetória ou a poética do grupo. Tenho o maior respeito mesmo por ele, por que faz coisas de um esmero e cuidados que impressionam. Mas é que nada me tocada, me afetava, me comovia. Ver o Galpão era como observar com olhos pouco devotos, de longe, uma santa no altar. Se admira a beleza, se respeita o que representa, mas com pouca comoção por qualquer outro aspecto, sem maior estupefação.
Mas ontem... ontem fui ver “Nós”, o novo trabalho do grupo, que está em Recife, participando do FESTIVAL RECIFE DO TEATRO NACIONAL. Fui porque é bom participar. Fui para ver o belo (e isso hoje já seria por si só muito bom). Mas sabe, quando você entra com pouca expectativa e de repente percebe uma força maior que você, que lhe absorve, provoca, agride, transtorna, emociona, desafia?
Pela primeira vez vi um Galpão que está fora, absolutamente fora, de seus parâmetros estéticos, que aposta numa renovação incomum de sua poética. Para além das canções, da luz, da dramaturgia, o espetáculo vale por um elenco afiado, disposto, dono do espaço e dos tempos, vale por Teuda Bara, vale por não menosprezar a nossa inteligência, por comungar a “sopa” dos dias, vale por que é preciso, mesmo sem saber para onde ir, não deixar que a inércia, a preguiça, a desculpa, nos imobilize. Ali, sem sair da cadeira, o público se move, se translada, se agita, se comove.
Feliz pelo grupo, por mim (que tive esta oportunidade) e por Ana Paula, a quem vim o trajeto inteiro de volta para casa tentando acalentar. Ela bem sabe que não há palavras que açambarque o imponderável e que a poesia morre quando tentamos disseca-la.
Quem não viu vá ver. Hoje ainda tem. Às 20h30.
Imperdível.

QUE EMOÇÃO!

“Todos choramos. Nascemos chorando. Ninguém se lembra, mas que emoção dever ser, uma enorme emoção, essa de nascer, de vir ao mundo. Até onde posso me lembrar, sei que chorei muito quando pequeno. Chorei por um sim e por um não. Minha irmã mais velha ficava parada na minha frente me olhando fixamente e me dizia: ‘Chore!’. E eu chorava. Chorei de desgosto, chorei de tristeza, chorei de amor, chorei de raiva (foi minha mãe quem me explicou isso, e esse foi um dia importante, quando compreendi que podemos chorar de raiva como um primeiro passo para TOMAR A DECISÃO DE AGIR, de NÃO SE DEIXAR EXPLORAR, de se REVOLTAR). Talvez houvesse também um prazer secreto em chorar. Um dia, enquanto chorava, cruzei por acaso com o meu reflexo no espelho: vi minha própria imagem toda enrugada, meus lábios todo contraídos, minhas lágrimas. E nesse dia eu parei de chorar. Mas ainda hoje acontece, até com alguma frequência, que eu tenha vontade de chorar quando uma emoção toma conta de mim, me submerge. Por exemplo, quando ouço certas músicas. ”

Georges Didi-Huberman



segunda-feira, 10 de outubro de 2016


A primeira coisa é se autoconhecer a ponto de saber o que GERA ENERGIAS em você, o que promove alterações em seu estado e condutas normais, o que transforma as suas atitudes (internas e externas), o que lhe dá FORÇAS. (Não estou falando de drogas)
Nunca entrar em nada QUE NÃO SEJA DESAFIADOR PARA VOCÊ, que não faça o seu coração bater mais forte, que não lhe arranque fora da comodidade, que não mexa com você, que lhe deixe indiferente.
É preciso mesmo SILENCIAR para se ouvir melhor.
É necessário saber DESLIGAR O MUNDO LÁ FORA para acionar as suas FORÇAS INTERNAS (suas vísceras, seu coração, seu diafragma, seus pulmões, seu fígado) e suas FORÇAS EXTERNAS (seu corpo, sua voz).
É que você vai se doar por uma hora e meia, você vai operar um sacrifício e precisa estar pronto, ativo, como um atleta, como um sacerdote. Algo maior que você vai começar a se desvelar para o público, para a sua comunidade, para o que vierem lhe ver, algo mais intenso que a vida comum e ordinária vai sacudir as pessoas. Precisa que lhe sacuda antes de sacudir o outro.
E você tem de dominar o ritual, que tem de ser realizado com precisão cirúrgica: cantar, dançar, ficar imóvel, se movimentar, respirar, falar... você precisa ser dono e senhor de cada palavra que será dita, de cada gesto que desenhará mundos no espaço do jogo, que é o palco, a arena, o campo, o ringue, a praça, o terreiro, a estrada.
Precisa saber que um ator cria mundos, sim, que instaura atmosferas, que impulsiona pensamentos, mobiliza sensações, emoções, comoções, que faz refletir, que gera outros modos de ver e sentir.
Eu conto com vocês para cada coisa que vai ser posta ali, nisso que é o ALGUÉM PRA FUGIR...
Para que a dança aconteça, Para que o grito desentale, Para que o arrepio venha,
NUNCA IR AO ENSAIO COM INDIFERENÇA PELO JOGO.
Nunca se apresentar como se fosse a coisa mais banal que há.
Por que isso sempre é a morte do artista.
E não deixa de ser também, em certa medida, a morte do espectador.
Por que é tempo jogado fora. E tempo é vida.
É a sua vida e a do outro que está em jogo, portanto.
É o seu tempo e o do outro que está se escoando ali.
É preciso intensidade nas coisas que a gente faz.
E intensidade não quer dizer falta de delicadeza.
Façam valer a pena. Deem conta do recado.
Amo vocês

FÉ E PEIA DURA!

domingo, 18 de setembro de 2016

Não somos somente um nome e nem é só o nome o que nos singulariza. Há milhares de Marias, Terezas, Renatas, Anas, Carlos, Paulos, Josés, Joões, Manoéis, Pedros... Tantos com prenomes e sobrenomes completamente idênticos. Nascidos alguns nas mesmas datas, até. O que nos singulariza, mesmo que houvesse a hipótese de não termos um nome, para o bem e para o mal, somos nós mesmos: nossa cara, nosso corpo, nosso jeito, gesto, pensamentos, desejos, crenças, atitudes, formas de olhar, de caminhar, de encarar o mundo, de amar, de odiar, de se indignar, de se submeter a certas circunstâncias, nossa ética, estética, tribo, ofício, escolhas, histórias. Também nossas quedas, feridas, vazios, dores, encontros, desencontros, perdas, solidões.  A esta pessoa que é cada um de nós, induplicável, indivisível, uno, deram (dão, darão) previamente, no começo da estrada, no início da jornada ainda, na chegada, um nome. Ou seja: um nome, antes de toda a história, de todo gesto, de tudo, enfim, é um título e uma aposta... no futuro, no presente, à cegas, nominada e singular. 
Senta-se ele à mesa, na sala semiescura. E se se vê frente a frente com a brancura do papel.
Esculpir ali no vazio da página, em contraste, com tinta preta, uma a uma, as palavras que marcarão a escultura, a paisagem em desenho fértil do que ainda não há.
De dentro para fora, em claro e escuro, cava nichos, protuberâncias, figuras.
Crava, perfura, lima, rasga, risca, corta, em grossas camadas, as superfícies planas do papel.
Cria as reentrâncias, relevos, saliências, silêncios e sons.

Trabalha, enxerta, extrai, substitui, permuta, até que ganhe tridimensionalidade as imagens invisíveis e cifradas, até que, mãos leves e alma nua, a invisível efemeridade que somos, transparece e ganha vida e vira música.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ANTES QUE TERMINE O DIA


A todas as pessoas que foram, são ou serão minhas amigas um dia.
Algumas que nem consigo lembrar o nome hoje, mas que foram imprescindíveis no passado.
Outras que são mesmo para sempre e tão somente porque existem, é que posso eu também existir e ser eu.
Gente que me deu a mão, o braço, o ombro, a força, a palavra, o lenço, o sorriso, a festa surpresa, o colo, o lenitivo, a esperança, a coragem, o apoio.
Gente que cantou ao meu lado quando ainda tinha o Zambiola e um desejo enorme de ser artista; gente que me pagou o almoço quando eu não tinha nada nos bolsos para cooperar com o rango; gente que lembrou de mim num reveillon e na última horinha, quase no já já vira, ligou para dizer que o ano tinha sido bom porque nós tínhamos juntos enfrentado muitos leões; gente que acreditou em mim, que me pôs as mãos nos ombros, nas costas e me empurrou para diante; e todos os “não desista!”, “acredite!”, “te amo!”
Todos os que me amparam em seus guarda-chuvas nos invernos infernais desta cidade.
E os que comigo riram, choraram, beberam, dormiram, viajaram, quiseram, doaram, dividiram, multiplicaram, apostaram, me puxaram a orelha, me chamaram na vera.
Sem vocês eu teria caído antes, bem lá atrás. E talvez nem tivesse ânimo para me erguer novamente. Sem vocês eu seria menor, certamente. E se cheguei, quase lugar nenhum, foi porque tantos foram generosos com os meus tropeços.
Aos meus amigos, aos que nem posso nominar porque graças aos céus, aos orixás, a Deus, nem consigo contar direito quantos são (não que sejam muitos, mas o bastante para a alegria e festa de meu coração). Tantos rostos, tantos nomes, tantas narrativas, tanta saudade.
Valeu! Valeu muuuuuito! Vale sempre. Mesmo tão distante, mesmo silenciado, estou aqui. E amo vocês de um jeito que não tem como imaginar.
Muito agradecido mesmo.
Beijos.

Q.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

KRISTEVA

“Quero dizer mais uma vez que não discuto as vantagens democráticas criadas por essa nova ordem mundial, penso que elas são consideráveis. Todavia, afirmo que um aspecto essencial da cultura-revolta (...) está ameaçado, que a própria noção da cultura como revolta e da arte como revolta está ameaçada, submergidos que estamos pela cultura divertimento, pela cultura-performance, pela cultura-show. ”

“Em vez de adormecer na nova ordem normalizadora, tentemos reanimar a chama, que tem tendência a se apagar, da cultura-revolta”.

“A felicidade só existe ao preço de uma revolta. Nenhum de nós se satisfaz sem enfrentar um obstáculo, uma proibição, uma autoridade, uma lei que nos permita nos avaliar, autônomos e livres”.

“Mas e se acontecer que essa identificação com o poder não funcione mais, que eu me sinta excluído (a), que eu não perceba mais o poder, que se tornou normalizador e falsificável? O que acontece, então? O que devo fazer?”


Julia Kristeva

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

“ESTRELA DA TERRA”



Paulo Cesar pinheiro e Dori Caymmi
  
Por mais que haja dor e agonia
Por mais que haja treva sombria
Existe uma luz que é meu guia
Fincada no azul da amplidão
É o claro da estrela do dia
Sobre a terra da promissão.
Por mais que a canção faça alarde
Por mais que o cristão se acovarde
Existe uma chama que arde
E que não se apaga mais não
É o brilho da estrela da tarde
Na boina do meu capitão.
E a gente
Rebenta do peito a corrente
Com a ponta da lâmina ardente
Da estrela na palma da mão.
Por mais que a paixão não se afoite
Por mais que minh'alma se amoite
Existe um clarão que é um açoite
Mais forte e maior que a paixão
É o raio da estrela do noite
Cravada no meu coração.
E a gente
Já prepara o chão pra semente
Pra vinda da estrela cadente
Que vai florescer no sertão.
Igual toda lenda se encerra
Virá um cavaleiro de guerra
Cantando no alto da serra
Montado no seu alazão
Trazendo a estrela da terra
Sinal de uma nova estação
https://www.youtube.com/watch?v=a-o4MvK9IkM


“Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar
As asas da noite que surgem
E correm o espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar
Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor
Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir seu amor é sonhar”

Música de Heitor Villa Lobos
Letra de Dora Vasconcellos


https://www.youtube.com/watch?v=AQPddEHfLHs


Encontro aberto que tem como objetivo dividir com artistas, educadores e público interessado os conteúdos produzidos pelos integrantes da Companhia Circo Godot de Teatro durante os três meses de residência na sede da Comuna Teatro de Pesquisa, em Lisboa. Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil – Intercâmbios nº 1/2014, do Ministério da Cultura, o Projeto Godot in Comuna foi uma residência artística realizada pela Companhia Circo Godot em Portugal, dividida em dois momentos: pesquisa documental e iconográfica em cidades portuguesas de origem medieval (o material coletado servirá como fonte para um próximo espetáculo a ser montado); e residência na sede da Comuna Teatro de Pesquisa, na qual investigou-se a história do grupo português, se aproximando da sua poética nestes 43 anos de existência, sua maneira de estar no mundo e se posicionar frente aos problemas sociais, políticos, econômicos e artísticos de seu tempo, interagindo, provocando reflexões, inquietações, interferindo na forma de ser e estar no mundo.

COMO ESTRELAS NA TERRA


Filme de Aamir Khan.

Filme legendado :

clipe do filme:

https://www.youtube.com/watch?v=ImK0Ncl3xuI

Crítica:
http://setimacabine.com.br/critica-como-estrelas-na-terra/

domingo, 17 de janeiro de 2016

CONVIDAMOS!
Encontro aberto que tem como objetivo dividir com artistas, educadores e público interessado os conteúdos produzidos pelos integrantes da Companhia Circo Godot de Teatro durante os três meses de residência na sede da Comuna Teatro de Pesquisa, em Lisboa. Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil – Intercâmbios nº 1/2014, do Ministério da Cultura, o Projeto Godot in Comuna foi uma residência artística realizada pela Companhia Circo Godot em Portugal, dividida em dois momentos: pesquisa documental e iconográfica em cidades portuguesas de origem medieval (o material coletado servirá como fonte para um próximo espetáculo a ser montado); e residência na sede da Comuna Teatro de Pesquisa, na qual investigou-se a história do grupo português, se aproximando da sua poética nestes 43 anos de existência, sua maneira de estar no mundo e se posicionar frente aos problemas sociais, políticos, econômicos e artísticos de seu tempo, interagindo, provocando reflexões, inquietações, interferindo na forma de ser e estar no mundo.

sábado, 24 de outubro de 2015

Mãezinha

Faz agora um ano que a minha mãe morreu e surpreende--me o que ela tem mudado depois de se ir embora. Não falo de idealização, não falo de saudades, falo de transformações reais. Parece-me que nada se alterou em mim em relação a ela, acho apenas que se modificou com o tempo. A nossa relação não foi sempre pacífica, muito poucas vezes foi pacífica, comecei logo por a minha mãe quase ter morrido, com uma eclampsia, quando nasci e, daí para a frente, as suas preocupações comigo não pararam. Meningite, tuberculose, cancros, isto no que diz respeito à saúde, no que diz respeito ao resto mau aluno, mal educado, o meu percurso escolar envergonhava-a, contava que ia ao liceu pedir aos professores que me pusessem na primeira fila visto que eu não ligava nenhuma às aulas, contava que, durante a prova escrita do exame de admissão, enquanto os outros meninos escreviam eu estava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto.
- E por aí percebi logo o que ia ser a vida dele
acrescentava, já a ver-me vender Bordas d'Água e pensos rápidos nas esplanadas. Depois era desobediente, malcriado, mentiroso, passava o tempo a ir buscar papel almaço de trinta e cinco linhas para escrever, lia livros que nada tinham em comum com aqueles que devia estudar e roubava-lhe cigarros para fumar às escondidas na janela da casa de banho, todo inclinado para fora por causa do cheiro. Praticamente não falava e desobedecia o mais que podia. Julgo que, na sua ideia, era uma espécie de vagabundo a-social em botão. A minha passagem pela faculdade foi calamitosa, eu que queria trabalhar nas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian e, se acabei o curso, foi devido à teimosia do meu pai e ao auxílio do meu irmão João. Faltava às aulas, ia para o cinema encostar, ou deixar que senhoras que nem via encostarem a perna à minha, apresentava-me aos exames com uma ignorância virginal. Para o fim, desesperada, a minha mãe prometeu que me dava a carta de condução se eu fizesse os exames todos na primeira época e, daí para a frente, a partir do quarto ano, passei a fazer os exames todos na primeira época para ter mais tempo de férias para escrever. Aí, na praia, passava quase o verão inteiro fechado no quarto a fabricar obras-primas que deixavam de o ser mal as lia e acabavam, rasgadas com ódio, no lixo. Consciente da minha ausência de talento proclamava com modéstia

- Vou ser o maior génio do mundo
e recomeçava depois de queimar aquilo junto à figueira do quintal. (O meu irmão Pedro apanhava as sobras. Se calhar achava-me um génio igualmente, sei lá, e fazíamos concursos de chichi a ver quem atirava o jacto mais longe.)
Enquanto isto a minha mãe suspirava
- Oh filho
a abanar a cabeça com desgosto, tentava levar-me para o caminho da virtude, alto e fragoso, mas no fim doce, suave e deleitoso (Camões) e eu insistia nas redações, desesperado
- Ainda não é isto, ainda não é isto
sempre com vontade de desistir mas insistindo numa paciência de boi. A minha mãe lá ia aturando estas e outras desgraças, eu considerava-a intolerante e injusta, ela considerava-me uma criatura estranha (estou a ser simpático para comigo) mas, a partir de certa altura, comecei a olhá-la de uma maneira diferente. Trabalhava como uma moura para educar aquele rebanho de filhos, ocupava-se de tudo e, lentamente, começou a acreditar um bocadinho (pouco) em mim. O meu pai não era um homem fácil, nós não éramos muito fáceis, a sua vida não era fácil, o dinheiro não abundava, ela procedia diariamente à multiplicação dos pães e dos peixes (pães e peixes de toda a ordem) e, estranhamente, comecei a desconfiar que gostava dela mas nunca lho mostrei muito nem fui suficientemente grato. Não sei porque misteriosa razão era, muitas vezes, desagradável para ela, brusco, esquivo. Perto do fim comecei a dizer-lhe poemas, eu que já não os escrevia há que tempos (a minha mãe adorava poesia), a ser, de longe em longe, terno para ela, a, imaginem, beijá-la. Depois houve o episódio horrível da morte do Pedro, que continua a doer-me irremediavelmente. Fomos dizer à mãe, a mãe disse
- Tenham misericórdia de mim
a mãe acrescentou
- Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu
e, passado pouco tempo, desejosa de se ir embora para estar com o filho de novo, faleceu de tristeza. E principiou a aparecer diante de mim uma mulher inteligente, forte (ela que era pequenina e fisicamente frágil), decisiva na formação dos filhos (foi ela, por exemplo, que ensinou a ler), séria, honesta, de uma dignidade exemplar. Agora sim, conversamos às vezes. Agora sim, compreendo o pouco que recebeu da vida, sem queixumes (nunca foi azeda). Agora sim, compreendo que capaz de amar. Isto tudo ganhou depois de morrer e, claro, o que declarei ao princípio estava errado: não foi você, mãe, que mudou. Mudámos os dois. Quer dizer, deixemo-nos de tretas: mudei eu. Tenho o seu retrato na sala, grande, tão no género da maior parte dos seus filhos. Não no meu que saí à família do meu pai. Mas não faz mal, não é? Vim tanto de si como os meus irmãos e metade do sangue que derramei a escrever esta crónica pertence-lhe.

ANTONIO LOBO ANTUNES
http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-10-16-Maezinha-1

TEMPO!


O tempo vai passar, irmão meu.  
Não fique triste. É mesmo assim.
Tão certo é isso, tão plausível, que chego a estremecer ao saber, ao compreender, ao sentir que não estaremos aqui para vermos, para continuarmos a ver,
A luz amarela da lua que algumas noites cheias têm...
Ou o pôr de sol que se vê de certos lugares mágicos,
Aos pés de despenhadeiros à beira mar.
Nós passaremos pelo tempo que por ora ainda é nosso
E ficarão umas fotografias, algumas notas
E quem sabe um poema velho
Nos advertindo de que a vida (mais que o tempo)
PASSA MESMO.

E que faz tu enquanto ele escoa?

terça-feira, 28 de julho de 2015

Então...

Então...
Quando me apaixonei pela primeira vez, não sabia o que era paixão. Só sentia uma saudade medonha quando ela não estava por perto. Ficava desenhando mentalmente as feições de Leninha, mas sem conseguir traçar bem as curvas, as cores, as reentrâncias, o perfume, o jeito moleca.
Um dia a segui, sem que me percebesse, até a sua casa, que ficava próxima a padaria do bairro. Dai em diante, fins de tarde, queria ir sempre comprar pão. Minha mãe estranhou aquilo, aquela disponibilidade surpreendente para descer a rua, quando sempre me negava a ir. Passei a pentear mais o cabelo, a botar perfume, a não ir tão desarrumado. Queria passar na frente da sua morada, e havia um trecho do caminho em que andava em câmera lenta, para ver se ela me via, para ver se eu conseguia vê-la. Uma vez a encontrei lavando louças no quintal num vestidinho-inho-inho de chita, colorida e cheia de espuma nas mãos. Linda, me viu, parou um momento o que estava fazendo e me sorriu.
Assim, a partir desse instante breve (que durou muito para soverter-se em minha imaginação), sempre que estava distante dela redesenhava seus contornos, as suas curvas,  as suas formas, mentalmente. E quando se presentificava, quando de repente estava frente a frente com ela, sentia o terremoto tomando corpo: frio na barriga (ou seriam borboletas?), tremores nas mãos, um nó na garganta, gagueira súbita e um formigamento intenso nas pernas. Era um cataclismo. E foi assim, desequilibradamente, que descobri o que era estar apaixonado.
Anos depois, quando comecei a fazer de teatro, perto da minha primeiríssima estreia, na velha capela de São José, no Córrego do Jenipapo (Casa Amarela), sabendo que em poucos minutos entraria em cena para fazer algo que só eu poderia fazer, com a minha voz, meu suor, meu corpo, minha vida, meu afeto, fiz outra nova descoberta (para mim) fantástica: é que outra vez me vieram os tremores, outra vez o frio (borboletas?) na barriga, outra vez o formigamento e uma vontade insana de fazer xixi. Era algo tão poderoso quanto encontrar Leninha, era desestabilizador. E demorava um ou dois segundos para sentir o mundo aquecer, depois que entrava em cena. É assim ainda, quando retorno aos palcos (agora mais dirigindo as encenações do que trabalhando nelas como ator), todos os sintomas, surpreendentemente, me retornam, fixam-se em mim, me desestabilizam.
Agora neste início de agosto são vocês, meus amores, meus colegas, meus amigos, do Curso de Interpretação para Teatro (SESC Santo Amaro), que estarão entrando em cena para uma aventura intensa e cheia de paixão com a Leninha de vocês.
Eu, ali sentado na platéia, no escuro, vou torcer por cada instante. E vou pedir aos deuses todos que os iluminem com luz, sucesso e aprendizado renovado em cada novo projeto que vocês se meterem. Vai ser bom! Vai ser foda!
Uma vez, numa de nossas primeiras aulas, falei sobre a grande diferença entre SER APAIXONADO e SER APAIXONANTE. Que uma pessoa com paixão é coisa boa, mas que uma que seja capaz de incendiar os outros com a sua paixão é supremo. Que possamos incendiar com a nossa paixão os que entrarem em contato conosco. Que seja combustão pura. Que seja luz e calor. Agora, estrelas, é chegada a hora de brilhar. Vão lá e arrasem!

Saudades de vocês, saudades de todos, saudades de tudo.

domingo, 24 de maio de 2015

Outro dia estávamos conversando sobre ser criativo. Eu prefiro falar de ser criador, que é algo que foge aos enfeites e perfumarias (e muito mais difícil de alcançar)...

“Por que é que a tua atriz não diz os textos dependurada num tecido, era muito mais criativo”.  Sei. A questão está na necessidade imperiosa que temos de pirofagia: quanto mais fogos de artifício, melhor. Eu que tenho reais dificuldades com tudo o que é criativo, estou sempre tentando fugir das receitinhas, embora saiba que não estou jamais tentando redescobrir a pólvora. E sinto que muitos de meus pares tendem a colocar obstáculos com a simplicidade das coisas. E isso me tira de verdade a paciência. Faz lá o teu espetáculo e põe o teu tecido e pendura nele quem você quiser. Acho digno. Mas não é a minha... a não ser que o próprio processo de criação me solicite coisas assim, eu simplesmente me nego a fazê-lo. Que outros, mais criativos que eu, o façam.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Violência - Zizek

“A consciência ética ingênua nunca deixará de se surpreender pelo fato de que pessoas que cometem terríveis atos de violência contra seus inimigos possam manifestar uma calorosa humanidade e delicada preocupação em relação aos membros de seu próprio grupo. Não é estranho que o mesmo soldado que massacrava civis inocentes estivesse pronto a sacrificar a sua vida por sua unidade? Que o comandante que ordenava o fuzilamento de reféns pudesse na mesma noite escrever à sua família uma carta cheia de amor sincero?”


Slavoj Zizek

Sol! Luz e fortuna!

Hoje ouvi de minha atriz que ela nunca e jamais se sentira sozinha no palco (apesar do trabalho ser um monólogo) porque sabia que eu estava ali com ela o tempo todo. E me deu um abraço apertado, já em vias de voltar à sua Itália querida. Eu fico contente por que é a mais pura verdade. Não trabalho sozinho e este espetáculo em especial só foi possível porque o monólogo é de fato um diálogo de muitas vozes juntas, de muita escuta, de muita cooperação. E além do mais (fora uns momentos em que a gente de fato precisa), é muito ruim se sentir só... e mesmo quando estamos deveras só, nunca estamos. Há que se ter pelo menos os fantasmas (os nossos) por companhia. Boa viagem, Sol! Luz e fortuna!

Tranquilo

O que ele queria mesmo, o que alimentava secretamente em seu coração, era uma pausa mínima para dar asas a outras faces de seu ser. Não exatamente uma vida mais tranqüila, mais uma vida mais VIVA. Correndo sempre o tempo todo daqui para lá se sentia como se sua vida se esvaísse em desnecessidades alheias que não lhe supriam o vazio. Queria um espaço de tempo para beijar e passear com os seus filhos nas cascatas de Bonito. Uma rede para balançar com o seu amor. Um silêncio cheio de escuros aconchegantes debaixo de cobertores cálidos. Queria uma taça de vinho e uma música suave em contraplano. Queria sentir a vida um tantinho que fosse mais de perto. A felicidade talvez estivesse escondida na simplicidade das coisas amenas.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CARTA


Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana